Aladdin se espelha no original para contar história renovada

Share on facebook
Share on google
Share on twitter
Share on whatsapp

Tomar Aladdin como uma obra isolada é uma tarefa muito complicada. Despir-se de tudo que se sabe e tentar esquecer tudo o que os personagens representaram durante estes 17 anos desde o lançamento da animação original da Disney é quase impossível. As comparações são inevitáveis. Talvez por isso o longa com atores deste ano de 2019 tente se distinguir em pontos importantes e consiga se sobressair ao esperado.

Guy Ritchie tem uma filmografia extensa, mas não soava como o diretor ideal para conduzir um projeto desta magnitude. Mas sua competência é perceptível em tela ao transformar o filme em um musical muito inspirado no que se tem de referência da cultura do oriente médio, em união com o imaginário de Bollywood.

Utilizar as marcantes músicas originais ajuda, com certeza, mas a cadência encontrada faz com que a trama seja ainda melhor aproveitada entre uma canção e outra.

Falando em utilização da trilha sonora da animação, uma das principais, “nunca teve um amigo assim” (Never had a friend like me, no original), interpretada por Robin Williams, como gênio da lâmpada, retorna com algumas mudanças pontuais. E já entramos no assunto, o gênio azul de Will Smith, apesar de incomodar menos com seu visual no longa se comparado às fotos de divulgação, ainda é problemático. Tanto que os próprios produtores sabem e o evitam a todo custo no decorrer da projeção, mantendo a forma humana em tela o máximo possível.

Smith sabe, também, que a comparação inevitável e injusta com o trabalho brilhante de Robin Williams no original apenas o prejudicaria. Por isso, as opções tanto de roteiro quanto do próprio Will para o seu personagem cumpra a mesma função da animação de 92, mas tenha vida e história próprias, sem deixar de transparecer e demonstrar os talentos de quem o interpreta.

Se Williams abusava das imitações e da sua agilidade na comédia, Smith puxa seu lado rapper e espertalhão para causar risos na plateia, mantendo o carisma esperado deu um personagem tão icônico, mas deixando sua marca única, diferente — intencionalmente — daquela que criou raízes durante tantas infâncias mundo afora.

Outra personagem que ganha maior profundidade é Jasmin. Em um momento de empoderamento feminino e de questionamento de ideias antiquadas, a já forte filha do sultão ganha ainda mais potência para reclamar seus direitos e ter sua voz realmente ouvida. Além do mais, o próprio relacionamento dela com o protagonista se torna mais verossímil, já que existe mais tempo para que ele se desenvolva.

Este tom mais realista toma conta de toda a projeção, tornando alguns elementos infantis que traziam graça e leveza à animação mais calcados no mundo real, como um sultão mais imponente e que aparente de fato entender as mazelas de se governar.

Mas este pé no realismo não tira o encanto das grandiosas sequências e da magias criadas pelo gênio ou do suntuoso palácio, que se impõe sobre a cidade e tem uma arquitetura linda, com fontes, terraços e quartos gigantescos.

Apesar disto, design de produção mescla momentos de brilhantismo, com iminentes acertos nos cenários, à locações vergonhosas e dignas de produções de baixo orçamento. O esperado contraponto entre a moradia da realeza e a vida comum dos plebeus aparece, mas na hora de retratar as ruas de Agrabbah, apesar de expor a diversidade de cores esperadas, algumas locações são tão estranhas que tiram o espectador de sua imersão.

Com tramas mais elaboradas para todos os personagens, até o vilão Jafar ganha mais tempo para que sua história de vingança tenha maior propósito e suas decisões, apesar de diferentes, mantenham a caracteristica do personagem.

Já o protagonista Aladdin ganha, e muito, com a interpretação de Mena Massoud. Ele toma inspiração nas dezenas de expressões que os animadores meticulosamente colocaram em 1992 e as expressa de maneira real durante a projeção, as encaixando em meio a diálogos e cenas de reflexão. A interação com seu macaquinho Abu e com o restante do elenco é muito boa e natural e, apesar de alguns momentos de pouca inspiração, é possível ver o bom ladrão que habita o personagem do início ao fim, com atitudes nobres que somente um diamante bruto tomariam.

Novamente, a releitura de clássicos com a tecnologia atual gera o questionamento de qual a necessidade da existência de um ‘remake’ tão próximo ao lançamento do original, já que a história a ser contada é a mesma. Aladdin se sai melhor do que a grande maioria destas novas adaptações e segue o modelo de Dumbo, ao se basear na animação, mas tomar decisões próprias pelo bem de uma história bem contada, com personagens interessantes e conflitos verdadeiros. Com alguns escorregões perceptíveis e momentos de certo constrangimento pelo que se passa em tela, Aladdin é um bom novo retrato para audiências apaixonadas ou que ainda não conhecem a história das “noites da Arábia”.

r7